Um bom escritor é aquele que consegue dizer várias coisas ao longo de seus livros. E Agatha Christie realiza essa tarefa muito bem.

O principal personagem de sua vasta obra é o detetive Hercule Poirot, tão metódico quanto carismático. Esse personagem aparece nas histórias de assassinato. Seu objetivo como detetive é claro: resolver o enigma de quem cometeu o crime. Essa tarefa que já não parece simples se dá em um enredo paradoxal, a saber: a história só pode ir adiante se for para trás.

Será pela atuação de Poirot, em cada caso, que o nó paradoxal é desatado. Enquanto a construção da solução do crime está sendo montada, Christie aproveita para nos contar algumas coisas interessantes.

Os crimes se dão em cenários do cotidiano, por mais que um local ou outro pertença a uma família rica sempre é possível pensá-los como factíveis. Ao colocar suas histórias desse modo, ela nos coloca também na história. Com essa atitude convidativa e nosso aceite ela nos diz que há em todos um desejo de morte (que não é o desejo pela morte) que está sempre pairando.

Ela não se preocupa em circunscrever o que seria esse desejo, mas lança pistas, faz pequenos traços e delineamentos. Entre eles, podemos destacar que ao embarcarmos na história esse desejo de morte  já nos atravessou, mesmo que não saibamos como defini-lo.

É com Poirot que o ato homicida se liga ao desejo de morte. E aqui há outra conversa de Christie com seus leitores. A premissa de que cada assassinato só pode ser cometido pelo seu assassino possibilita a autora nos mostrar que o ato homicida é uma construção  que carrega a marca do singular (ainda que por vezes se trate de um grupelho). Ou seja, mesmo pairando o desejo de morte na escritora, nos personagens e nos leitores, a ação vinda desse desejo é particular. Aquilo que se produz junto do assassinato, ou seja, as provas verdadeiras são as marcas intransferíveis do assassino, pois seu ato sádico contém algo de próprio.

Há todo um modo de extravasar esse desejo que concerne a cada pessoa. Como descobrir então quem é o assassino? O método usado por Poirot é o da lógica. Seria um equívoco pensar que o desejo pode ser completamente desvendado pela lógica racional,  mas o que acontece é a revelação de que através da lógica racional chega-se ao peculiar do desejo do sujeito.

Poirot não faz uso de tecnologias sofisticadas, não há parafernálias  Há um constante uso do pensar, da interpretação ou como ele mesmo diz “uso das células acinzentadas” com o sutil cuidado de não sobrecodificar totalmente o desejo de morte. Este pode ser racionalmente pensado como o(s) motivo(s) que levaram ao crime, nada mais que isto, ainda que seja suficiente para incriminar o culpado.

Portanto, Christie parece sugerir que a expressão desse desejo sádico não se dá a esmo. Haveria um porção arbitrariamente destacável suscetível a uma lógica racional, bem longe de uma lógica experimental que se comprova com as repetições. Christie revela, então, de forma robusta que o desejo de morte está para além das mesmices técnicas verificadas pelos acessórios tecnológicos, e sim, que há uma lógica, com um trabalho sádico manufaturado, em cada crime e, principalmente, em cada desejo de morte.

Anúncios