Como já disse em outro post, para mim um grande autor é aquele que consegue escrever várias coisas ao mesmo tempo em cada obra.

A intenção desse texto é mostrar um curioso aspecto da obra Os três mosqueteiros. Os dizeres seguintes não esgotam a experiência com o livro. Uma das características peculiares do livro de Alexandre Dumas é a diferença que o narrador tem entre apresentar D’Artagnan e todos os demais personagens.

D’Artagnan é um personagem que vai sendo construído ao longo da trama. Inicialmente, o gascão é um sujeito atabalhoado e de pavio curto. Se comparado aos mosqueteiros ou demais cavaleiros, ele está sempre inferiorizado, não tem porte físico, não é rico e tem que vender seu cavalo ao chegar em Paris, enfim, ele não parece estar à altura de um mosqueteiro. Claro que há aí uma crítica do autor frente ao idealismo cavalheiresco de outrora.

Tão logo D’Artagnan sai de sua cidade natal após ouvir as recomendações da mãe e do pai, ele se depara com sua primeira luta. Ele fica enfurecido com algum comentário que escuta ao passar por um grupo de pessoas. Ele tenta tirar satisfação com o falastrão, mas é tratado com tanto desprezo pelo homem que o caçoa, que a impressão é de que não haverá duelo, por mais que D’Artagnan queira. Minutos depois ocorre um combate e o gascão, que acabara de sair de sua cidade, quase morre em seu primeiro desafio.

D’Artagnan é um personagem dinâmico o que lhe confere diversas aventuras, as quais são fundamentais para a construção do próprio personagem. Claro que a intenção aqui não é esmiuçar todas essas aventuras, afinal, isso renderia um ensaio. O que mais importa é que esses acontecimentos são capazes de provocar mudanças importantes.

Tais mudanças soam como novos atributos adquiridos pelo personagem ao longo da história, por exemplo, ele deixou de ser um rapaz muito irritadiço tornando-se alguém capaz de sobrepor a razão ante a imprudência, o que lhe vale muito, pois com a astúcia que passa adquirir, ele começa a ganhar o respeito dos mosqueteiros (vale lembrar seus nomes: Athos, Porthos e Aramis).

O narrador opta por não ser demasiadamente detalhista no que diz respeito as mudanças que o personagem vai apresentando, isso cabe ao leitor. A aproximação de D’Artagnan com os três mosqueteiros acontece porque o gascão se mostra como alguém capaz de arquitetar planos, sair de enrascadas e demais perigos como se fosse um experiente veterano. Assim, ele conquista os três amigos, tal qual eles o conquistaram.

A construção de D’Artagnan caminha lado a lado com a aquisição de novas habilidades. Essas não se resumem a destreza com a espada (essencial para um mosqueteiro). Ele passa a se expressar melhor, agir sorrateiramente quando necessário, a se calar, usar de forma satisfatória as redes de contato e, fundamentalmente, ele se mostra um grande personagem ao conseguir com que seus amigos mosqueteiros voltem para labuta após sérias emboscadas.

Esse episódio circunstancial do livro exprime várias coisas, entre elas, uma crítica, a meu ver com um grau de humor, à ideia de que os mosqueteiros seriam pessoas de estirpe não sujeitas a certas situações mundanas, a saber: a embriaguez, a mentira e a confusão entre aceitar ser padre e deixar de lado alguns prazeres da carne.

As três situações são vividas pelos mosqueteiros. A diferença entre eles e D’Artagnan é que os três suscitam a ideia de que já eram assim antes de D’Artagnan existir em suas vidas, e que continuarão a ser assim até o dia de suas mortes. Há, portanto, a revelação da condição humana para Athos, Porthos e Aramis. O narrador tira-lhes os véus de como cada um vive, assim, o leitor passa a conhecê-los melhor ou de maneira mais honesta, afinal, a crítica ao idealismo cavalheiresco parece estar sempre presente no livro. Diante da revelação sabe-se que não se trata da aquisição de um novo hábito, e que tampouco é o efeito de uma das emboscadas, mas sim pode ser uma armadilha para que se entenda que eles só passaram a ter esse hábito por conta  da emboscada que os tirou de batalha por um tempo.

D’Artagnan parece inserir-se como o único personagem em construção a cada capítulo, página ou linha. Seus diversos inimigos também estão praticamente construídos. Lógico que a presença de D’Artagnan estremece os alicerces mais firmes de Paris e região, mas é sabido logo nos primeiros contatos com cada adversário de D’Artagnan qual serão seus modos de agir. É possível surpreender-se com uma ou outra atitude de algum personagem, mas a impressão de que uma atitude amigável vem acompanhada de uma atitude funesta nas próximas páginas.

Portanto, um dos aspectos mais interessantes do livro é acompanhar D’Artagnan e vê-lo se desenvolver. Diferentemente de outras histórias onde o personagem já tem uma porção de características a priori, através das quais os eventos futuros só servem para reafirmar tais características fazendo o personagem perder o encanto da surpresa, D’Artagnan surge como um personagem das marcas de espadas, tiros, má alimentação, amores, traições, sofrimentos e, fundamentalmente, da ação como construção de si.

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