Na mesma semana em que o papa Francisco esteve no Brasil, eu assisti o filme Habemus papam. Pode-se dizer que o filme tem como assunto principal o conclave para a eleição de um novo papa e sua dificuldade em assumir o posto de sumo pontífice da Igreja Católica.

Ressalto que minha proposta não é discutir sobre os aspectos técnicos do filme. O que me interessou no filme foi o dilema vivido pelo personagem Melville, feito pelo ator Michel Piccoli, a saber: estar ou não estar preparado para assumir o papado.

Para que o leitor possa se situar no contexto do filme direi, rapidamente, que: assim que é eleito o novo papa, esse titubeia ao dizer se aceita ou não o papado. Seus colegas iniciam um canto e quase não se ouve ele dizer que aceita a missão. Entretanto, no momento em que os cardeais irão anunciá-lo na praça de São Pedro, para milhares de pessoas, o novo papa tem uma crise e não aparece em frente ao público.

O novo papa se mostra sobrecarregado, estressado, irritadiço e extremamente humano. Entre ficar com os colegas cardeais e sozinho, ele se percebe sempre solitário. Há um dilema que lhe é próprio, que lhe marca e o singulariza entre todos os presentes no conclave.

Um psicanalista  é chamado com o intuito de propiciar ao papa um bem-estar para que este possa assumir as novas funções. Tão logo o psicanalista entra no Vaticano já recebe algumas recomendações sobre o que não se deve falar com o aquele analisando especial e, assim, a sessão se inicia.

Curioso que há duas cadeiras no centro de uma grande sala e em torno delas, distantes poucos metros, todos os cardeais que participaram do conclave estão com olhos e ouvidos atentos ao que será dito e expresso naquela primeira sessão. O que dá a impressão de ser uma metáfora do que o papa poderá encontrar mundo afora, se assumir o papado.

Evidentemente, a sessão não transcorre tão bem, mesmo que Melville revele algumas coisas interessantes.

A meu ver, é necessário escutar o que é dito pelo personagem e aceitá-lo como humano antes de papa ou divino. A relação entre suas falas mostra que ele foi um homem sempre solitário, por mais que tivesse companhia de vez em quando.

Sua queixa manifesta é saber se está ou não preparado. O pano de fundo dessa fala pode ser uma ideia de que não estando preparado, pode-se chegar a estar, de modo que essa nova condição atingida, a de estar preparado, é algo que se apresenta no presente e percorrerá o futuro.

Assim sendo, uma vez preparado a lógica que subjaz essa afirmação é a de que há uma repetição interna, inerente e perpétua na realização da tarefa da qual se julga preparado. Seria necessário admitir, então, que haveria um nível de organização tal na missão a ser feita, a ponto de ser possível antevê-la premeditando a ação com o intuito de manejar os efeitos, a priori.

A implicação disso é que no interior do debate sobre a antecipação, que o sujeito faz frente ao que pode acontecer, exista a capacidade da pessoa em sobrecodificar os eventos, sendo ele mesmo o referencial sobrecodificante e não o fenômeno.

Essa atitude sobrecodificante lança um véu fantasioso sobre o que pode ou não acontecer. Ainda que isso, às vezes, possa ser um recurso útil, há momentos em que a abertura ao inesperado pode ser o gatilho para a surpresa producente de sentidos e de encantamento da própria vida.

Nos últimos dois ou três séculos passou-se a acreditar que estar no controle é tão bom como necessário, de modo que a desordem passou a ser vista como algo ruim, prejudicial. Como se o princípio norteador da vida fosse o controle sumário das instâncias onde o sujeito se depara. Com isso, o gozo advindo na surpresa passa a ser substituído por um plano de ação que advoga contra a subversão do desejo. Felizmente, nós não colocamos toda nossa vida sob controle, pois há algo em nós que realmente sabe que nem tudo é passível desse controle.

No cerne de nossos pensamentos sobre a vida nos damos conta de que ela pode mudar rapidamente e, nesses momentos, percebemos como qualquer planejamento mesmo muito completo pode se deparar com o Real como furo da ordem que nos coloca em suspensão. Talvez, o melhor sinal de saúde que o personagem teve foi se colocar em questão, foi se deparar com a surpresa, o inesperado, em cada um dos eventos nos dias em que fugiu do Vaticano.

Finalizando, a fuga do Vaticano é uma ótima metáfora onde estão presentes a ordem, o controle, o procedimento, a realização de uma missão, o inesperado, o encantamento pelo cotidiano e o dilema em aceitar ou não a demanda vindo do outro.

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