A intenção é apresentar, em linhas gerais, uma possibilidade de pensamento com base na psicanálise de Lacan acerca da dificuldade que todos nós temos em responder a pergunta: Quem sou eu?

Esse texto longe de esgotar a temática de Lacan sobre o eu visa apresentar uma curiosa e interessante caminhada sobre essa questão. O artigo de referência é: O estádio do espelho como formador da função do Eu (1949), de Lacan.

Inicialmente, vamos nos deter na primeira parte do título do artigo: O estádio do espelho. Um bebê, entre seis e dezoito meses, é posto em frente ao espelho. Durante vários meses a criança colocada ali não se reconhece. Essa capacidade virá com o tempo e é disso que se trata o texto de Lacan.

É importante notar uma diferença entre você, leitor, que já passou pelo estádio do espelho, e que reconhece a imagem refletida do bebê porque há um espelho e a possibilidade ou não do bebê em se reconhecer como tal. Não é a atribuição de um nome próprio que lhe confere um ego, tampouco uma certidão de nascimento. Essas coisas permitem que você e o Estado o reconheça como cidadão, mas será que o bebê se reconhece como um eu? Nessa idade, ainda, digamos que ele é somente um organismo, já que a linguagem não o atravessa, não sendo, então, um sujeito.

Diante do espelho a criança interage fazendo movimentos lúdicos, aproxima sua cabeça perto do vidro, encosta as mãos e, também, emite sons. Em geral, ela não tem destreza em seus movimentos, sendo errantes, espasmos, de modo que a coordenação motora ainda está em processo. Como alguns autores dizem a criança tem um corpo fragmentado ou despedaçado, e, frequentemente, ela interage mais com o reflexo (o duplo) do que com outros elementos do ambiente ao olhar no espelho. 

Agora, podemos nos ater ao resto do título do texto: formador da função do Eu. Esse Eu é o je – sujeito do inconsciente ou sujeito por excelência. Para uma compreensão de longo alcance do que Lacan aborda é imprescindível se atentar para a ideia de função do Eu.

Lacan sempre se mostrou um pensador arguto e isso foi demonstrado através de seu conhecimento sobre várias áreas como: psicanálise, linguística, dialética, estruturalismo, filosofia e, também, matemática. Será por analogia a essa última que o alcance de sua proposta é apresentada. Assim sendo, tomemos por conhecer uma definição do que é função.

A tese de doutorado de Renata Rossini sobre o conceito de função matemática nos mostra que esse conceito sofreu mudanças ao longo dos séculos, mesmo assim, é possível recolher uma definição sobre esse conceito, através do matemático estruturalista Boubarki, em 1939:

“Dá-se o nome de função à operação que associa a todo elemento x que pertence a E o elemento y que pertence a F que se encontra na relação dada com x; diz-se que y é o valor da função para o elemento x, e que a função está determinada pela relação funcional considerada. Duas relações funcionais equivalentes determinam a mesma função” (BOUBARKI, 1939, p.6 apud MONA, 1972, p.82).

Apresentado o conceito de função podemos fazer a analogia com a cena da criança. Os fragmentos (ou elementos) do corpo em movimento encontram correspondência na imagem refletida no espelho. A criança que vê suas ações em consonância com o reflexo passa a assumir a imagem refletida (o duplo) para si. Ela faz do seu reflexo um suporte pelo qual ela passa a se reconhecer. (É claro que esse processo conta a participação dos pais ou responsáveis que em sua brincadeiras de ternura mostram ostensivamente, ao longo dos meses, que aquela figura refletida é o bebê, ou seja, esse não é um evento vivido unicamente pelo bebê).

Ocorre, então, o que Lacan chamava de identificação, no sentido de que há uma modificação quando a criança assume (ou antecipa) essa imagem, de modo que se estabelece uma relação entre o organismo humano com sua realidade.

Esquematicamente temos o seguinte tomando o bebê como referencial. O organismo humano nos primeiros meses de vida não se reconhece como tal. Esse organismo e o ambiente se confundem, são misturados. Essa criança através de várias experiências com o corpo e, entre elas, a experiência de se ver no espelho antecipa ou assume uma imagem que lhe forneça a ideia de um corpo, ainda que esse não lhe seja total, pois, por exemplo, não vemos as costas.

Com o reflexo no espelho a criança vai percebendo que apenas uma figura se modifica, justamente, quando ela está se mexendo. Isso auxilia no processo de diferenciação entre esse organismo que vai ganhando corpo e o ambiente. A criança quando começa a assumir que o reflexo (ou duplo) é ela passa então a assunção jubilatória da imagem, ou seja, ela se alegra ao se deparar com esse duplo que lhe responde nos movimentos.

A assunção jubilatória da imagem caminha junto com a noção espacial do corpo, que é experienciada nas mais diversas formas. Entre o período do nascimento até a solidificação do duplo como imagem de si alguns comportamentos interessantes ocorrem com as crianças. Por exemplo, frequentemente, ocorre de uma criança chorar após a primeira chorar, quando aquela bateu nessa; outro exemplo corriqueiro são os gêmeos ao compartilharem emoções; outro exemplo, ainda, são as crianças que ficam em frente ao espelho e batem no seu reflexo ou duplo de si e choram. Além disso, em frente ao espelho as crianças podem experimentar a agressividade, a aproximação da cabeça com o reflexo, o riso, o som, em uma interação tão curiosa quanto importante.

Uma das implicações dessa antecipação da imagem do duplo de si feita pela criança é que ela vai dando início ao estabelecimento da diferença entre o mundo interior, Innenwelt, e o mundo exterior, Umwelt. Essa divisão que a criança realiza de que o que está para além da imagem do espelho passa a ser encarado como objeto, aquilo que faz objeção, se opõe, revelando assim, a dimensão imaginária do eu. Ao atingir esse nível a criança parece manifestar a possibilidade de abrigar a origem simbólica do Eu, em uma forma primordial, como já dizia Lacan.

Entretanto, não há sobreposição entre o eu e o Eu, senão uma função assímptota. É aqui que se tem o longo alcance da proposta de Lacan quando se usa a lógica matemática. Uma função assímptota diz que uma reta disposta em relação a uma curva, de tal modo que a distância de um ponto dessa curva frente a esta reta tende para zero quando o ponto se afasta indefinidamente sobre a curva.

O que Lacan quer dizer aqui é que se nos perguntarmos: Quem sou eu? A resposta superficial que dermos é uma aproximação (uma distância zero) entre quem eu sou, a partir da antecipação imaginária do duplo de mim, que continua a existir ao longo de nossa vida, por exemplo, você aos cinco anos se reconhecia em frente ao espelho, então, você assumia ali que aquilo era você, entretanto, leitor, hoje você está mais velho e ainda assim você se identifica com a imagem do espelho.

Em contrapartida, se você se por a pensar sobre essa pergunta para além dessa resposta superficial, então, jamais você conseguirá encontrar uma que realmente dê conta, pois por mais intenso que seja sua busca você perceberá o aumento da distância de uma resposta possível e satisfatória, aqui ocorre outra analogia com a matemática.

Em suma, o eu assumido da imagem do reflexo aparece sob uma forma de ficção jamais irredutível para o indivíduo. O eu, dessa forma, se une ao Eu assintoticamente, ou seja, se aproxima muito do sujeito e em uma concepção distraída parecem ser a mesma coisa, entretanto, entre o eu e o Eu há uma discordância de sua própria realidade revelando um vazio entre eles.

Por fim, a criança se identifica com o que ela não é, de fato. Ela não é essa imagem especular, mas é isso que lhe confere suporte para que, mais adiante, a linguagem a leve à posição de assunção de sujeito.

Bibliografia:

Renata Rossini – tese de doutorado: http://www.pucsp.br/pos/edmat/do/tese/renata_rossini.pdf

Lacan, Jacques. Escritos. Tradução: Vera Ribeiro – Rio de Janeiro – Jorge Zahar Ed. 1998 (campo Freudiano no Brasil).

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