Vimos na postagem anterior o início do processo de formação do eu pela antecipação da imagem especular. Agora, daremos seguimento a esse processo nos atentando, inicialmente, nessa imagem antecipada como forma, como Gestalt.

Quando a criança assume a imagem especular para si, através das correspondências reflexivas, ela está tomando para si uma forma de corpo, a qual é respaldada em suas próprias experiências.

Essa forma (Gestalt) de um corpo, ainda que ficcional, parece funcionar como aquilo que permite ao bebê potencializar os movimentos de seu corpo e dará condições para que haja um suporte para o Eu, mais adiante.

Como já vimos, o estádio do espelho pode ser entendido como um processo de identificação que ocorre com algo de fora, no caso, a imagem especular. Esse fenômeno já apresenta a característica do eu como alienado, ou seja, como algo que está distante, que está fora. Então, podemos seguir nesse raciocínio afirmando o eu como alienado no duplo de si, afinal, é por sua imagem especular que a criança se identifica. Isso revela a constituição alienante do eu, ou seja, a criança se identifica como tal lá onde ela não é.

Essa identificação parece não ocorrer só com as crianças, como também com os adultos, a todo instante, já que ao se olharem no espelho os adultos não se veem como crianças. Disso decorre uma experiência curiosa vivida por todos.

A experiência a seguir só necessita de dois participantes em frente ao espelho, geralmente, ocorre entre as mulheres que são amigas. Quando elas conversam em uma situação dessas uma vê a outra como ambas se veem em frente ao espelho, ou seja, como cada uma se reconhece enquanto tal.

A amiga ao olhar sua outra amiga nota que há algo diferente no rosto dessa última e vice-versa. Elas sabem que são as mesmas pessoas, entretanto, elas tem a ideia de que algo está diferente com outra pessoa, algo não vai bem no reconhecimento daquela imagem.

O exemplo apresentado dá pista para pensarmos que nos formamos, como imagem, lá onde não somos, desse modo, o outro ao me reconhecer, reconhece algo de mim que eu mesmo não me reconheço instantaneamente. Além desse meio de identificação há uma metáfora que desloca o espelho alterando a imagem que a pessoa se identifica, mas nesse texto não entraremos nessas complexidades.

Entretanto, já alertava Lacan, que mesmo depois de assumida uma forma do corpo os adultos, ainda assim, costumam sonhar com eles mesmos tendo seus membros separados do corpo. Além disso, o corpo como algo fragmentado ou diferente é frequente na esquizofrenia e, também, nos sintomas histéricos. Isso parece denotar que o processo de assumir uma forma é potencialmente frágil.

A partir desses exemplos de sonhos podemos pensar na formação do Eu (simbólico). Esse Eu digamos rapidamente que é aquele atravessado pela linguagem, constituinte e constituído por ela, e que faz uso dela na trama trama social em que todos nós vivemos.

Já vimos que o Eu emerge da divisão entre mundo interior e exterior feita pelo eu. Desse modo, o Eu assume, então, as diretrizes que estabelecem o externo e o interno, cuja tarefa não é nada simples.

A divisão entre o externo e o interno não se apresenta como algo fechado, onde existiria a incompatibilidade de comunicação, ao contrário. Tanto o externo quanto do interno se comunicam. Há trocas entre eles. Para facilitar a leitura podemos pensar em uma janela, pois ela é um ponto de contato entre o que está fora e o que está dentro, sendo lugar de trocas, de trânsitos, de passagens, e ao mesmo tempo que permite ela impede que algumas coisas passem revelando que nem tudo terá acesso.

Desse modo, o externo poderia ser entendido, inicialmente, como aquilo que ficou separado no processo de formação do Eu, não que tudo o que está fora seja algo que não faz parte dessa formação, mas sim, que por ora, não é preponderante na constituição interna desse Eu; o interno, por sua vez, estaria mais ligado, primeiramente, com as inquietações internas que se fazem presente a todo instante.

A formação do Eu é correlata à tentativa de simbolizar fazendo a criança se deparar com uma Lei (vinda dos pais ou responsáveis) sobre os impulsos internos. A voluptuosidade da criança é refreada por alguém já inserido na cultura em que vive (na dialética social), de modo que onde se apresentava a volúpia e não mais está, ali se instaura o Eu.

Assim sendo, o momento de conclusão do estádio do espelho é uma forma-suporte articulada mais fortemente com a criança na cultura, que ao nascer já está inserida dentro dela, mas que ao longo de seu crescimento consegue se articular melhor dentro dela. Com isso, ela se torna mais ativa nas situações sociais elaboradas. Em suma, aqui o organismo humano está se tornando apto a possibilitar a emergência do sujeito e está mais suscetível a se moldar de acordo as leis sociais.

Nesse sentido, a forma assumida ou o suporte alienante do eu, curiosamente, pode ser a base que permite ao Eu ser, também, alienado, mas dessa vez, no desejo do Outro. É possível admitir, então, que a forma do corpo assumida pela criança é capaz de produzir efeitos formadores no organismo. Logo, a antecipação da imagem do espelho em uma forma seria como uma solução de suporte, de sustentáculo, para que mais adiante haja a emergência de um sujeito.

Por fim, diante desse suporte fundador do eu, como algo alienado dele mesmo, pois ele se forma lá onde ele não é, o qual servirá de matriz simbólica para a formação do Eu, Lacan lança outra analogia matemática que nos permite entender a dificuldade que nós mesmos temos em tentar dizer quem somos. Ele compara nossa dificuldade a uma impossibilidade matemática, já conhecida dos gregos, que ficou conhecida com a quadratura do círculo, onde a impossibilidade reside na tentativa em se fazer um círculo e um quadrado coincidirem em área, sob determinadas etapas. Desse modo, no interior do debate de quem somos reside uma impossibilidade lógica.

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