English: An image of the French philosopher Ja...
English: An image of the French philosopher Jacques Lacan. Français : Une image du philosophe français Jacques Lacan. Deutsch: Ein Bild der französische Philosoph Jacques Lacan. (Photo credit: Wikipedia)

Hoje e nos próximos dias apresentarei o texto publicado de Gilles Lapouge no Caderno Cultura do jornal O Estado de São Paulo, em 18/10/1981, sobre Lacan. Esse texto foi extraído de: http://www.ipla.com.br/estudos/artigos/lacan-por-gilles-lapouge.html e será dividido em algumas partes devido ao seu longo tamanho.

Aqui Gilles Lapouge escreve algumas linhas sobre a curta convivência que teve com Lacan.

Ele não realizava mais seminários. Depois de tanto barulho, tudo em torno dele era silêncio. Não era mais visto nas ruas de Sant Germain des Près. Ou, quando se aventurava fora de casa, nestes últimos meses, não mais era aquele personagem suntuoso, o “magnífico”, envolvido em peles, mas sim um homem triste, frágil, cansado, que caminhava lentamente arrastando os pés. Um velho.

Em torno dele os rumores ferviam: discípulos, inimigos e aduladores davam as notícias mais desencontradas sobre Lacan, como um telégrafo que assinalasse a posição de um navio perdido no Ártico ou, ao contrário, anunciasse que esse navio descobrira novas terras: “Ele está empenhado em um último combate, o mais perigoso de sua vida, está procurando formalizar a teoria psicanalítica através da matemática, e precisa de solidão”, diziam uns — a que respondiam outros: “Ele está liquidado, não pode mais nem falar. Ficou louco, vai ser internado.” E comentavam: “Belo símbolo, o mais célebre dos psicanalistas acabando sua vida em um hospício…”. Ou ainda: “O clown, o bufão, o histrião chegou ao fim. Representou todos os seus números, fez-nos rir durante muito tempo, apaixonou-nos — mas era tudo vento. Seus bolsos agora estão vazios, não há mais pó, dentro deles, para que ele o atire nos nossos olhos. Hoje ele é apenas um acrobata que não consegue mais fazer seu número”.

Eis que de repente o gênio, ou o liquidado, ou o acrobata, morre. E todo mundo se espanta. Sua morte surpreende. E, no entanto, Lacan era um homem muito velho, nascido em 1901, partícipe dos mais ativos do grupo surrealista, com Breton e Aragon, desde 1918. Mas a celebridade só chegou muito tarde, mais precisamente em 1966, quando ele já estava com 65 anos e decidiu-se a publicar seu primeiro livro, composto pelas aulas que dava em seu seminário, o Écrits, editado pelas Editions du Seuil. (Vale um parêntese: este homem que seus inimigos denunciavam como vaidoso, esperou chegar aos 65 anos para se colocar finalmente sob os refletores da publicidade).

É verdade que, antes de 1966, não é que Lacan fosse um ninguém: ele era conhecido, reverenciado e adulado, embora apenas por um restrito círculo de psicanalistas e filósofos. Os outros, o grande público culto sabia que existia e oficiava em Paris, há 30 anos, um personagem enigmático, fascinante, uma espécie de xamã — Jacques Lacan — que distribuía o seu saber, um pouco à maneira de Sócrates, apenas por meio da palavra: um saber devastador, cortante, temível, graças ao qual a psicanálise, edulcorada pelas modificações da escola anglo-saxônica, pôde finalmente se transformar naquilo que Freud queria que ela fosse, “uma peste”.

Foi durante esse longo período de segredos, sussurros e inconfidências que se forjou a lenda de Lacan, lenda que, a seguir, a partir de 1966, quando virou moda, transformou-se num verdadeiro câncer. Diga-se, aliás, que o próprio Lacan nada fez, jamais, para impedir sua proliferação. Estranhamente, desse homem, que se tornara uma vedette mundial há 15 anos, a rigor nada se sabia. Enquanto se conhecia tudo sobre Freud, sua família, sua infância, no que dizia respeito a Lacan estava-se na mais completa escuridão. Sabia-se apenas que ele nascera em Paris, de família rica, em 1901. Nos anos 20, jovem psiquiatra brilhante, interessava-se tanto pela poesia como pelas doenças mentais, convivendo ora com os loucos ora com os escritores surrealistas. Loucos ou, de preferência, loucas, já que Lacan tinha uma acentuada predileção pelo discurso delirante das mulheres, fossem elas místicas ou assassinas.

Anúncios