O texto abaixo visa apresentar algumas diferenças entre os modos de vida de antigamente e os da nossa época. Em ambas é possível notar formas de sofrimento. Enquanto estiver lendo é necessário ter em mente que não se deixou totalmente o mundo de antigamente. Algumas coisas ainda existem com variadas forças e intensidades. Neste cenário a psicanálise pode ser uma boa ferramenta para lidar com essas formas variadas do sofrer.

Um aspecto importante no mundo de outrora era a família. Ela estava fundada em algumas características: a presença do pai, da mãe e do(s) filho(s). O casamento era algo que deveria durar até que um dos cônjuges morresse, afinal, ainda que permitido judicialmente, o divórcio não era bem visto pela sociedade. Com isso, casamentos que não eram felizes, que geravam apenas discussões e brigas, eram recorrentes e os filhos do casal, frequentemente, cresciam em um meio de muitas confusões e violências (físicas e simbólicas).

O pai ocupava o posto de chefe da família. O termo chefe não era à toa. Cabia a ele decidir os rumos da família, em grande parte. Sua palavra tinha muito peso e força sobre as decisões da casa. Não era por menos que mães e filhos(as) escondiam muitos acontecimentos do dia-dia dele, uma vez que não o queriam ver enfurecido. Pode-se dizer que essa sociedade era patriarcal.

Além da palavra forte, o pai tinha poder nos olhos. É muito comum hoje em dia alguém falar de que seu pai não precisava dar bronca, pois “era só olhar para mim daquele jeito que eu sabia que tinha feito coisa errada“. Claro que em algumas famílias todas as características apontadas aqui se personificavam com a mãe, mas isso não era predominante naqueles tempos.

Antes existia sempre alguém dando ordens nas pessoas e dizendo como que elas deveriam seguir com suas vidas, por exemplo, em casa tinha-se o pai; na empresa, o chefe; na escola, o professor(a); na saúde, o médico familiar, etc. Essa generalização ajuda a entender que antes existia sempre alguém que pudesse informar o caminho a ser trilhado. Haveria, então, uma espécie de norte a ser atingido.

Em nossa época algumas aspectos acima se perderam, alguns estão enfraquecidos e outros só tiveram os personagens principais trocados enquanto a lógica se mantém.

Com isso, parte dos ideais de uma época com seus comportamentos aceitos são alterados. Não se trata de uma mudança total, afinal, os processos de subjetivação não são repentinos e muitas coisas ainda estão aí com suas intensidades, ora mais fracas, ora mais fortes, não necessariamente ausentes. 

Assim, pode-se notar mudanças nos padrões sociais valorizados com suas condutas próprias, seus jogos de verdade que somados a outros aspectos enriquecem o solo imaginário da época em que se vive. Diante do cenário em transformação as pessoas terão de se avir com isso, ou seja, arranjarem-se como puderem, o que, às vezes, repercutirá em sensações como “não me sinto encaixado nesse mundo” e, também, “me sinto perdido“.

Nesse novo cenário em que vivemos a figura forte do pai não é hegemônica. O modo como se pensa o que é uma família está alterado. O papel de chefe da família não cabe mais ao pai, em muitos casos; por vezes, ele sequer aparece ou, então, por ele se afastar é que a família se sente melhor.

No cenário atual não é mais o pai quem indica o caminho aos filhos. As possibilidades se expandiram para outros lugares que se coadunam com os jogos de verdade de nossa época.

Esses jogos aparecem sobre a face do financeiro – quanto mais dinheiro se tem, melhor, mesmo que o trabalho cause adoecimento, estresse, irritação, entre outras coisas. Junto disso há a cobrança pela existência do profissional flexível, sempre atento ao mercado, capaz de se atualizar rapidamente conforme o humor do mercado (curioso termo que se emprega cotidianamente); há, também, o investimento na performance não importa onde: trabalho, família, educação, sexo, namoro e na academia.

Não é difícil imaginar uma pessoa conhecida quando se lê parágrafo acima. A caricatura desse conhecido revela uma dinâmica atual que é a ideia massiva do eu/individualismo. Nossa sociedade está adotando a perspectiva de que é o indivíduo (acima de tudo) que importa. Se algo foi feito e deu certo foi porque “eu fiz bem“, senão, foi por culpa do outro (que é um eu também, mas de outro), em poucos casos esse eu super encaixado nos moldes de vida de hoje pode aceitar que errou. Jogando a culpa nele mesmo ou no outro a lógica que rege essa atitude é o eu como principio fundante.

Caso você não consiga atingir a performance em nenhum dos pontos acima alguém pode dizer que “a culpa é sua“, “o problema é seu” ou, então, “se vira“. Tudo voltado ao indivíduo. Não é de se estranhar que a auto-estima anda em voga, ainda mais a auto-ajuda.

No campo de algumas psicologias e psiquiatrias é possível verificar que a noção de indivíduo performático é fortalecida aos extremos, pois sentimentos como tristeza e angústia podem ser substituídos por algum rótulo de alguma doença mental, que pode indicar falha ou mal funcionamento de algo do seu corpo, o que deve levar ao doente ingerir algum medicamento para que possa reestabelecer uma boa performance.

Não é o que propõe a psicanálise. Em uma sessão de psicanálise há a experiência de falar, “por para fora” (ao invés do medicamento que se põe para dentro), de se interrogar sobre rumos da vida, buscar algum deciframento, em suma, visa uma nova posição do analisante diante da vida.

Fundamentalmente, a psicanálise é um tipo de clínica que coloca pontos de interrogação onde todos acham que aquilo é o certo. Das informações e verdades sobre nós mesmos todos nós já estamos cansados. Resta-nos fazer as perguntas: sinais de curiosidade e que podem provocar encanto pela vida e torná-la mais criativa.

Ref: Jorges Forbes – Inconsciente e responsabilidade – ed. Manole

 Benilton Bezzera Junior – O ocaso da interioridade e suas repercussões sobre a clínica – Transgressões.

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