O texto a seguir está apoiado no livro da psicanalista Maria Rita Kehl chamado O tempo e o cão, de 2004, publicado pela editora Boitempo.

Vamos nos aproximar desse problema pela via da psicanálise, e não pela psiquiatria com seus manuais de adoecimentos. Apresentaremos, aqui, as posições que as pessoas passam a assumir para suas vidas quando estão diante dos fenômenos depressivos. Assim sendo, sigamos com a autora.

Os estados de ânimo como tristeza, abatimento, desânimo, inapetência para a vida, não significam necessariamente depressão, ainda que existam aproximações. Além disso, o sofrimento vindo de alguma perda familiar ou de algum fracasso (seja em qualquer área da vida) não precisa ser necessariamente confiscado como depressão.

A posição do sujeito depressivo tem suas origens no início da infância. Pelos meandros dessa fase da vida acontecem eventos que terão como repercussão a dificuldade em sair dessa posição. Não cabe aqui amaldiçoar a infância, mas sim, em ver na depressão algo que não se limita, única e exclusivamente, a eventos recentes.

A posição do depressivo, inicialmente, está ligada a um recuo no enfrentamento de uma Lei, diretamente ligada a um personagem familiar. Entre encarar e perder, que é justamente um caminho mais adequado, a criança, nessa época da vida, prefere não enfrentar por receio de perder. Assim, ela não ganha, ela não perde, ela tenta se esconder, se anular, repetindo isso ao longo de sua vida.

Agora, falaremos mais do adultos. Uma característica interessante do depressivo é sua relação com o tempo. Ele age de uma forma diferente. Quando algum amigo ou colega nosso é depressivo conseguimos notar que há uma lentidão, praticamente, inerente à sua pessoa. Os eventos do dia-dia ou as “coisas” do dia são mais vagarosas para ele e nos parece que lhe falta algo. O que a clínica psicanalítica mostra é que o depressivo, ainda assim, goza, mas à sua maneira. Seu modo de se colocar na vida revela que há algo que não vai bem com sua própria vida pessoal, como também, com a vida social.

Há uma dessintonia entre o tempo do sujeito deprimido e o tempo que a vida social cobra. A autora chama nossa atenção para algo importante. O modo de funcionamento da psicanálise permite ao paciente um (re)encontro com uma temporalidade perdida (inclui-se, aqui, também, o que falamos mais acima sobre o recuo do enfrentamento no início da infância). A dinâmica da psicanálise permite fazer o paciente se deparar com algo que lhe atormenta, ao invés de algumas outras terapias que visam esconder, mais uma vez, a causa do sofrimento.

O analisando na psicanálise encaminha-se na busca por colocar em palavras uma via, um caminho, que o possibilite se representar enquanto sujeito desejante, dando um sentido para aquilo que, desde então, sempre ficou meio fora de ritmo em sua vida. Entretanto, há que se ter um cuidado aqui. A psicanálise não visa enquadrar o depressivo no tempo e nos modos de vida de sua sociedade, mas sim, visa possibilitar meios de se libertar o máximo possível a potência de uma vida criativa, muitas vezes pouco experimentada por um depressivo.

Podemos nos deter um pouco sobre o vazio que sente o depressivo. A falta de sentido na vida pode ser justificada pelos melhores argumentos, muitos dos quais, são, praticamente, irrevogáveis. Entretanto, o que o depressivo não sabe (e aí faz toda a diferença a análise) é o que causa seu desejo. A isso, ele é incapaz de chegar sem ir à análise. De modo que seus argumentos sobre o vazio, que toma conta de si, encontram um limite, uma vez que ele não consegue produzir nada sobre o que causa o desejo.

O depressivo pode ser alguém que acha que sabe sobre a causa de seu sofrimento, contudo, ele evita de se responsabilizar por esse saber. A autora afirma que, na realidade, há, digamos, um equívoco do depressivo nesse ponto. É nesse não-saber do que ele acha que sabe que o depressivo se aniquila subjetivamente.

Para finalizar esse texto, caminhamos junto com a autora ao dizer que se o gozo que a vida social (aquilo que a cultura nos ordena a fazer) está acima das forças do sujeito depressivo, e estará mesmo, e a depressão já é ameaçadora demais, resta, então, o sujeito depressivo usar do tempo da análise para a busca de uma vida mais potente.

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