Agora, vamos para a segunda parte do texto sobre as depressões, as quais atingem muitas pessoas e, boa parte delas, não sabem o que fazer.

Seguindo com Kehl (2004) a psicanálise pode abordar o problema da depressão por outro viés: como sintoma que ocorre no social. Bem, o que isso quer dizer? Quer dizer que não é apenas a parafernália química a responsável pela depressão. Há uma dimensão que precisa ser trabalhada que é a da pessoa no meio em que vive.

A depressão não é a única forma de patologia psíquica que tem relação direta ao meio em que vivemos. No final do século XIX e início do século XX era a histeria que ocupava esse espaço. Hoje em dia, ainda existem casos de histeria como antigamente, mas em número bem reduzido, pois muitas alterações sociais ocorreram, as quais estavam diretamente ligadas aos desejos das histéricas.

Antes de nos atentarmos à depressão é bom situar a psicanálise nisso tudo. A clínica psicanalítica não visa enquadrar o analisando no modo de vida da maioria. Não. Seu objetivo é permitir que o analisando possa ser criativo, potente e tenha autonomia para lidar com o seu desejo, tantas vezes deixado de lado pelo depressivo.

Pois bem, a depressão, como dissemos, é uma forma corriqueira de adoecimento desse início de século. Esse adoecer pode ser encarado como um descompasso entre o modo hegemônico de funcionamento da sociedade e a posição subjetiva do depressivo frente a isso. Uma sociedade se funda em regras, modos de vida, proibições, permissões, tabus, moral (religiosa e política) e o sentido dado à vida – tudo isso é o repertório cultural, o qual sofre modificações ao longo do tempo. As características típicas de nossa sociedade que permitem diferenciá-la de outras são: o exibicionismo, o consumo desenfreado, a competição e, também, a busca por uma “alegria” constante.

O depressivo é alguém que rompe, em partes, com esse pacto social. Ele não está tão suscetível a seguir essas modalidades de gozo. Enquanto ele tenta dar um basta nessas formas de viver, ele se anula subjetivamente (como vimos no texto anterior). O depressivo, muitas vezes, procura o isolamento sendo que a sociedade o convoca a se exibir. Se não bastasse, sua tristeza é um empecilho ao império da alegria, o que faz agravar ainda mais o quadro.

É como se ele entrasse em cena para não entrar e não saísse dela para ficar. Mas ficar onde? Em seu próprio tempo, em sua própria passagem de tempo. Seu tempo está lentificado, depressivo, contra o tempo acelerado que nossa sociedade exige.

Por ora, temos então o que o depressivo não quer quando pensamos no social. Entretanto, a clínica do depressivo na psicanálise deixa claro que seu posicionamento não é apenas um mal estar social, como também, há a dimensão particular com seus eventos particulares sejam recentes ou antigos, conforme vimos no texto anterior.

Por fim, distante da análise não podemos dizer quais são os compromissos e descompromissos de cada pessoa depressiva com sua condição desejante, afinal, essa é singular e se dá pelas escolhas de vida que a pessoa toma para além daquilo que sabe que fez, conscientemente. Assim, o depressivo sem a análise permanece desconectado do desejo, portanto, desconectado da produção de sentidos para a vida.

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