Vimos nas postagens anteriores que não adianta em nada camuflarmos os desconfortos psíquicos em nossas vidas. Mesmo tomando uma série de atitudes com o objetivo de esconder os traumas, os conflitos ou qualquer manifestação que possa ser ligada à tristeza, essas retornarão e cobrarão da pessoa uma solução.

A estratégia pessoal de “deixar para lá” o que está sentindo ou o que está incomodando pode ir minando suas relações pessoais, já que a cobrança pode se transformar em solidão, amargura, falta de ânimo e, principalmente, em vazio de sentido na vida. 

Será no decorrer do processo de análise que o trabalho psíquico feito pelo analisando o tornará capaz de suportar as dores inerentes da vida e, também, de conferir algum sentido à vida – dois pontos fundamentais da saúde psíquica.

Conforme diz Kehl (2004) o importante na clínica das depressões é a pessoa entender como o nó dos transtornos que a afetam revelam características da própria pessoa. Essa possibilidade de se reconhecer e de se responsabilizar pelo próprio sintoma vem pela via da palavra, onde a linguagem poderá dar melhores rumos ao sofrimento do qual o corpo padece.

Uma pergunta da qual o depressivo se afasta é: Onde gozo quando eu sofro?

A imagem mental que o depressivo carrega é forjada desde a infância e refinada ao longo da vida. É diante dela que o depressivo se posiciona sem saber. Todavia, ela tira a possibilidade da pessoa de gozar com a vida levando-o ao sofrimento.  Há um descompasso afetivo em seu modo de ser.

Além disso, o que dificulta o dia-dia do depressivo é o seu convívio no social. A depressão não realiza as ordens de consumo e felicidade, o que faz o depressivo se sentir excluído da partilha de alegria e ostentação, bem como, em sentir na carne seu sentimento de não pertencimento ao mundo em que vive.

Uma armadilha comum na clínica das depressões é fazer do depressivo alguém que está “pisando nas nuvens”, pois assim, ele não se coloca diante do seu sofrimento e torna-se um sujeito apto a consumir, o que o levaria, assim, a entrar no coro dos contentes que “se realizam no consumo e na ostentação”. Contudo, uma hora isso acabará e, novamente, o que foi adormecido da história da pessoa volta a cobrar uma solução.

Frequentemente, o depressivo é dito como alguém que não consegue sair do quarto ou da cama. Entretanto, como chama a atenção Kehl (2004) não é o movimento de ficar na cama que fez alguém cair em depressão, mas o contrário, é a retirada que faz a pessoa se deprimir. Isso dá início ao ciclo de estar fora do espaço público, ou seja, ficando só em casa e aumentando a depressão.

Portanto, ir para a análise é um dos primeiros movimentos no espaço público que o deprimido faz. Dirigir sua palavra para algum profissional possibilita ao doente ir se reestabelecendo, já que assim, ele vai se situando dentro do próprio discurso e de seu sofrimento.

Retomando algo que vimos no primeiro texto, o depressivo é forjado na infância e no transcorrer da vida em eventos onde entre se arriscar e poder perder ou ganhar, ele não tenta, dessa forma, não perde (algo que julga importante) e tampouco ganha (o que permite ter a sensação de que poderia alcançar esse resultado se tentasse).  Assim, o depressivo, por vezes, crê que poderia ter sido algo que não é.

Anúncios