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Luiz Gustavo Amadei

Um espaço de contato com a psicanálise para além do consultório.

Agatha Christie e o desejo de morte

Um bom escritor é aquele que consegue dizer várias coisas ao longo de seus livros. E Agatha Christie realiza essa tarefa muito bem.

O principal personagem de sua vasta obra é o detetive Hercule Poirot, tão metódico quanto carismático. Esse personagem aparece nas histórias de assassinato. Seu objetivo como detetive é claro: resolver o enigma de quem cometeu o crime. Essa tarefa que já não parece simples se dá em um enredo paradoxal, a saber: a história só pode ir adiante se for para trás.

Será pela atuação de Poirot, em cada caso, que o nó paradoxal é desatado. Enquanto a construção da solução do crime está sendo montada, Christie aproveita para nos contar algumas coisas interessantes. Continue reading “Agatha Christie e o desejo de morte”

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Agora é o momento para falar de si mesmo

Falar de si mesmo

Hoje em dia, a vida é muito agitada. Temos vários compromissos, nossos horários são lotados, nossas obrigações são muitas e as pressões são diversas. E uma queixa comum surge: Não tenho mais tempo para mim.

Isso é verdade. Afinal, o mundo atual exige de nós que sejamos atuantes no trabalho, em casa, com os filhos e com parceiros amorosos. Há uma cobrança praticamente insuportável em cima de cada um de nós.

Diante dessa vida de alta tensão acabamos ficando e nos tornando estressados. Tudo nos irrita. Ficamos furiosos com as crianças, no trânsito, no trabalho (embora seja frequente “engolir sapo”) e entre outras situações.

Nesse cenário estressante há sempre alguém próximo que reforça a ideia de que precisamos de um tempo só para nós. Então, a pessoa entusiasmada passa a frequentar aulas de musculação, idiomas, yoga, dança ou etc. Todas essas opções são muito boas e produzem algum resultado. Entretanto, isso não basta.

Essas boas alternativas para o estresse diário podem ser melhor aproveitadas com o auxílio psicológico. E por quê?

Porque, diferentemente, de todas as outras atividades que se pode escolher a análise não é feita através de tarefas, lições ou algo similar. Há que se deixar claro que em nossas vidas, na maioria das vezes, estamos à disposição de alguém (como vimos anteriormente).

Uma análise funciona ao contrário dessa lógica. Ao invés da pessoa estar à disposição de um profissional seja ele um professor de idiomas, musculação, yoga, dança ou etc. com vias de melhorar sua própria performance, em uma análise é o analista que está à disposição do paciente.

Não cabe ao trabalho do analista apresentar um roteiro de tarefas a seguir ou um plano de exercícios, mas sim, será o paciente que dirá ou fará aquilo que tem vontade. Ali no momento da sessão o paciente assume um papel de protagonista e maneja o tempo da sessão conforme seu desejo. Na análise o tempo é seu.

O analista reserva um horário para que possa prestar uma escuta profissional e caminhar junto com o paciente na melhor resolução de um dilema pessoal.

Portanto, ao optar em iniciar uma análise, a pessoa decididamente passa a ter um tempo para si, para falar de si, mesmo ao falar dos outros, enquanto que do outro lado da sala haverá um profissional prestando escuta e auxiliando nas questões trazidas pelo paciente.

Manifestações e o mal-estar contemporâneo

Não há como fugir do tema. Seja contra, a favor ou ainda a escolher um lado, esse assunto tem tomado o espaço público e privado dos brasileiros, ultimamente.

No momento em que se texto está sendo escrito é possível fazer algumas observações, mas não é possível traçar diagnósticos sociais, ainda. Quem sabe se nas próximas semanas ou, mais propriamente, nos próximos anos será possível entender de forma mais completa o que está acontecendo e/ou acontecerá.

Contudo, as observações podem ser feitas entendendo que as mesmas poderão mudar ao longo de todo o processo. Continue reading “Manifestações e o mal-estar contemporâneo”

A importância das palavras

Qualquer sociedade distante no tempo e no espaço de outra partilha alguns elementos em comum, entre eles, o uso da fala. Notadamente, todas as sociedades humanas possuíam ou possuem repertório de palavras que são usadas na comunicação entre seus membros.

Algumas sociedades são caracterizadas por usarem mais a fala, outras são menos falantes, mesmo assim, todas vivenciam a importância das palavras em seu cotidiano.

Na década de 1880, Josef Breuer, médico vienense, possuía uma paciente, Anna O., que ao falar sobre seus sintomas e recordar experiências infantis traumáticas tinha como efeito a redução dos sintomas dos quais se queixava. Nessa época, Josef Breuer e Sigmund Freud, médico austríaco, eram próximos e puderam pensar juntos acerca dessa peculiar situação médica.

Com o passar dos anos, Freud fundou a psicanálise com sua única regra: a associação livre, técnica na qual o analisando diz tudo que lhe vem à cabeça sem fazer censura de conteúdo. A permissão do uso das palavras na sessão analítica (que sempre estão associadas com outras e envoltas de afetos, sentimentos, emoções e razão) demonstra o grande valor que possuem, inclusive, na relação direta dos sintomas das quais se queixam.

Em meados do século XX, Lacan ao retomar os ensinamentos de Freud conduz um processo de apropriação de vários ensinamentos que estavam esquecidos desde então. Seguramente, um dos mais importantes foi com a linguagem, que então, já tinha status de objeto científico não sendo apenas a intermediária entre o pensamento e a comunicação humana.

Finalmente, com Lacan a psicanálise passa a usufruir muito mais dos conhecimentos da linguística e as palavras passam a ocupar importante papel na constituição dos sintomas, dos sujeitos, da tentativa de realização dos desejos, sendo as operações de linguagem que se verifica no inconsciente são a metáfora e a metonímia.

Bibliografia:

Goeppert, Sebastian e Goeppert, Herma. Linguagem e psicanálise. Tradução: Otto Erich Walter Maas. Ed. Cultrix, São Paulo, 1973.

Lacan, Jacques. O Seminário: Livro 5: as formações do inconsciente 1957-1958; texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; tradução de Vera de Ribeiro, revisão de Marcus André Vieira. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1999.

Lévi-Strauss, Claude. Antropologia Estrutural. Revisão etnológica de Julio Cezar Melatti. Trad. Chaim Samuel Katz e Eginardo Pires. Ed. Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro. Primeira edição brasileira, 1975.

Simanke, Richard Theisen. Composição e estilo da metapsicologia lacaniana: os anos de formação (1932-1953). São Paulo: FAPESP/Discurso Editorial/Editora UFPR, 2002 (1997). ISBN.: 8586590355.

Mito individual

Lacan em sua trajetória estruturalista apoiou-se em alguns autores, entre eles, Lévi-Strauss, de quem aproveitou muitas ideias, por exemplo, a de que as pessoas constroem um mito individual sobre sua vida que lhes faz sentido.

Costumamos usar o termo mito para qualquer história que achamos falsa. Frequentemente, na mídia, em livros, por exemplo, coloca-se em oposição Verdade e Mito. Entretanto, em Lévi-Strauss e Lacan essa distinção não é verdadeira e tampouco aplicável.

Lacan nos diz que todos nós formulamos uma história sobre nossa própria história. Nessa construção, há elementos que são factuais e outros, não. Entretanto, e justamente aí ocorre algo interessante, a distinção entre esses elementos não torna o discurso do sujeito ou do analisando uma farsa. A aparição de elementos criados pelo próprio sujeito para a sua história são tão importantes quanto aqueles que ele julga serem factuais. Por fim, em análise não está em jogo dizer somente a verdade, nada mais que a verdade.

 

Bibliografia:

Lacan, Jaques. O mito individual do neurótico, ou, A poesia e verdade na neurose/ Jacques Lacan; tradução Cláudia Berliner;  Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2008. – (campo freudiano no Brasil).

Lévi-Strauss, Claude. Antropologia Estrutural. Revisão etnológica de Julio Cezar Melatti. Trad. Chaim Samuel Katz e Eginardo Pires. Ed. Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro. Primeira edição brasileira, 1975.

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No fundo do ônibus

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Psicólogo Renan S. Carletti

Reflexões sobre clínica e psicologia